Narciso de ébano

capaovidentedarua46

Osvaldão foi menor abandonado, adolescente fugitivo da Febem, e agora, passados os seus trinta anos de idade, tornara-se um homem desempregado e sem perspectivas. Um cidadão exemplar do terceiro mundo. Sem que disso tivesse consciência, Osvaldão era a estatística mais bem-acabada do capitalismo globalizado e dos excluídos pelo neoliberalismo. E, além disso, negro.

Osvaldão carregou sempre o estigma de viver numa sociedade morena sem preconceitos de raça e de doce miscigenação. Seu único orgulho, adquirido em meio a mitos e tabus de uma forçada promiscuidade pela sobrevivência, era o membro viril que carregava sob as calças rotas de algodão. Troféu de pouco uso, dada a sua condição social, mas manuseado a saciedade. Já fora procurado por homens e mulheres que tinham ouvido falar do instrumento. Alguns, por curiosidade; outros, pelo desejo de consumo. Era o único capital que dispunha Osvaldão.

Tratava o membro da melhor maneira possível, venerava-o quase. Costumava exibi-lo nos finais de tarde junto às paredes da catedral da Sé, sem preocupações, sem malícias, com carinho. Empinando-o, como a um cabo de um látego de ébano, vendia seu produto como qualquer outro ambulante da região.

ALMADA, Izaias. O vidente da Rua 46: contos eróticos. Editora Mania de Livro. SP, 2001. p. 23.

14-08-07_izac3adas-almada_rodrigueanos

Quem lê melhora o mundo. Leia e deixe um livro em algum lugar público.

Veja também: CHICO XAVIER, Turismo sexual, SAUDOSA MALOCA, 400 Nudes, NELSON NED D’ÁVILA PINTO, Candelária, EVOLUSEX, 3º opção, CRASSEFICADOS‏, TEXT ME SOMETHING DIRTY, NÃO ERA BEM ASSIM., SENSIBILIDADE, RAPE ME, COMEÇOU O CARNAVAL!, LIVROS PARA COLORIR, SEXO SEGURO!, CONSCIÊNCIAS NOTÓRIAS: ALBERT EINSTEIN

Perfeição

Perfeição – Legião Urbana

Vamos celebrar
A estupidez humana
A estupidez de todas as nações
O meu país e sua corja
De assassinos covardes
Estupradores e ladrões

Vamos celebrar
A estupidez do povo
Nossa polícia e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso estado que não é nação

Celebrar a juventude sem escolas
As crianças mortas
Celebrar nossa desunião

Vamos celebrar Eros e Thanatos
Persephone e Hades
Vamos celebrar nossa tristeza
Vamos celebrar nossa vaidade

Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta de hospitais

Vamos celebrar nossa justiça
A ganância e a difamação
Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos
Comemorar a água podre
E todos os impostos
Queimadas, mentiras
E sequestros

Nosso castelo
De cartas marcadas
O trabalho escravo
Nosso pequeno universo
Toda a hipocrisia
E toda a afetação
Todo roubo e toda indiferença
Vamos celebrar epidemias
É a festa da torcida campeã

Vamos celebrar a fome
Não ter a quem ouvir
Não se ter a quem amar
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar o coração

Vamos celebrar nossa bandeira
Nosso passado
De absurdos gloriosos
Tudo que é gratuito e feio
Tudo o que é normal
Vamos cantar juntos
O hino nacional
A lágrima é verdadeira
Vamos celebrar nossa saudade
E comemorar a nossa solidão

Vamos festejar a inveja
A intolerância
A incompreensão
Vamos festejar a violência
E esquecer a nossa gente
Que trabalhou honestamente
A vida inteira
E agora não tem mais
Direito a nada

Vamos celebrar a aberração
De toda a nossa falta de bom senso
Nosso descaso por educação
Vamos celebrar o horror
De tudo isto
Com festa, velório e caixão
Tá tudo morto e enterrado agora
Já que também podemos celebrar
A estupidez de quem cantou
Essa canção

Venha!
Meu coração está com pressa
Quando a esperança está dispersa
Só a verdade me liberta
Chega de maldade e ilusão

Venha!
O amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera
Nosso futuro recomeça
Venha!
Que o que vem é Perfeição!

Veja também: Carnaval é Perfeição!, Advogados, Impostômetro, Mapa da indecência, Só um minuto!, Oitavo Anjo, Justiça de mierda, Marx escreve uma carta de repúdio ao professor, Candelária, Liberdade de expressão, Desordem, FILHOS DA PROSTITUTA