Setembro amarelo: prevenção ou mercantilização?

A prevenção do suicídio é um tema de esclarecimento necessário, sobretudo quando nos defrontamos com os dados epidemiológicos: quase 80% de todas as mortes por suicídio do mundo ocorrem nos chamados países em desenvolvimento; mesmo nos países com alta renda, os suicídios se concentram nas populações vulnerabilizadas e periféricas; no Brasil, os segmentos que mais se matam são aqueles que mais sofrem violência, a saber, a população indígena, preta, LGBTQIA+ e idosa. Deste modo, revela-se muito explicitamente a relação entre suicídio e violência estrutural, assim como a complexidade do fenômeno para se pensar políticas de prevenção de tipo universal, seletiva e indicada. THIAGO BLOSS DE ARAÚJO – a terra é redonda

Entretanto, a generalização da campanha para todo o mês de setembro produziu, nos últimos anos, um efeito contrário ao pretendido: a mercantilização e a desinformação sobre o comportamento suicida. Tornou-se já um “market trend” neste período que profissionais qualificados e não qualificados, blogueiros, celebridades e políticos se aproveitem da questão social do suicídio como plataforma de autopromoção.

Um dos dados equivocados repetidamente difundidos no Setembro Amarelo – tanto por alguns “especialistas”, quanto por oportunistas – é o de que 90% dos casos de suicídio estão associados a transtornos mentais.

Este dado, já refutado por sua fragilidade metodológica, tem sua origem em pesquisas de análise retrospectiva de mortes por suicídio no final dos anos 1990 e início dos 2000. Tais pesquisas estão embasadas sob forte olhar medicalizado do fenômeno humano, que acaba por reduzir o suicídio a uma patologia.

Com efeito, a reprodução irresponsável desses dados obedece a uma racionalidade mercadológica. Neste mês vemos crescer de forma exponencial profissionais da saúde mental ou até da administração de empresas, que vendem soluções mágicas para o comportamento suicida, sejam elas de origem comportamental, motivacional ou medicamentosa.

Deste modo, um fenômeno socialmente determinado como o suicídio, converte-se em objeto de discursos individualizantes e patologizantes, reduz-se a uma anormalidade a ser corrigida. Ou seja, tal como na Idade Média, o indivíduo que apresenta comportamento suicida se torna alvo de expiação e culpabilização por seu desespero diabólico.

Mesmo os profissionais com formação adequada no tema tendem a cair nesse tipo de racionalidade. A tendência neoliberal de converter tudo, inclusive a saúde mental, em objeto de administração empresarial de si, torna muitos profissionais qualificados reféns dessa lógica mercadológica. Mesmo sem a intenção, muitos colaboram para a espetacularização e mercantilização do suicídio ao restringirem seu campo de reflexão a soluções morais, discursos de união e empatia, por justamente serem os mais propícios ao consumo nas redes sociais e à aceitação pelo senso comum. Esta fórmula seduz inclusive gestores públicos, que compram a ideia e assim se eximem da responsabilidade de implementar políticas públicas de redução das desigualdades. Aliás, é importante lembrar que a redução das desigualdades tem impacto na redução dos suicídios. Por exemplo, os municípios brasileiros que dispõem de um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) e programas de transferência de renda bem estruturados apresentam números menores de suicídios.

Deste modo, em seu atual formato o Setembro Amarelo se mostra ineficaz para dar conta da principal raiz do comportamento suicida: a violência estrutural. Ao invés de o mês de conscientização sobre a prevenção do suicídio apontar para a necessidade da redução das desigualdades, da implementação de políticas públicas, da garantia de direitos e da busca por uma sociedade justa, o que se vê atualmente é a redução da saúde mental à sua dimensão mais abstrata, a saber, a do indivíduo convertido em “empresa-de-si”.

Fora desta relação, cada indivíduo-empresa defende os valores que bem entende, desvinculados de qualquer compromisso coletivo. Daí a contradição presente em muitos casos de pessoas que se dizem a favor da prevenção do suicídio e que, ao mesmo tempo, são a favor da pena de morte. Tornam-se defensores da “valorização da vida” conforme a ocasião, conforme o negócio, conforme a conveniência.

Obviamente, a solidariedade e a sensibilização com o sofrimento do outro é de extrema importância. Isto seria o fundamento de qualquer relação que se queira saudável e é sem dúvida uma premissa para a prevenção do suicídio. Entretanto, atualmente paramos nessa premissa.

É sempre necessário lembrar da importância do trabalho do Centro de Valorização da Vida (CVV) no acolhimento de pessoas em crise suicida. Trata-se de um serviço gratuito, disponível 24 horas por dia, que pode ser acessado pelo telefone 188 de qualquer região do país.

O que significa o 10 de setembro? com a psicóloga Luana Lima e a Jornalista Cleisla GarciaCVVOficial

Setemze-se: , , Setembro amarelo, UM PASSADO AINDA MUITO PRESENTE

Por que setembro amarelo?!?


“Don’t blame yourselves, Mom and Dad, I love you.” It was signed, “Love, Mike 11:45 pm”. Yellow Ribbon

Em 1994, o americano Mike Emme, filho do casal Dale Emme e Darlene Emme, suicidou-se com apenas 17 anos. Mike era conhecido por sua personalidade caridosa e por saber muito sobre mecânica. Sozinho, o garoto conseguiu restaurar um Mustang 68 e pintou o carro todo de amarelo. Porém, aqueles que conviviam com Mike não viram os sinais de angústia.

No dia do funeral do jovem, uma cesta de cartões com fitas amarelas presas a eles estava disponível para quem quisesse pegá-los. Os cartões e fitas foram feitos por amigos de Mike e possuíam uma mensagem: “Se você precisar, peça ajuda”. Em pouco tempo, os cartões se espalharam pelos Estados Unidos e começaram a surgir mais e mais cartões com pedidos de ajuda. Um professor de outro estado americano havia recebido um dos cartões de uma aluna, pedindo por ajuda.

Resumindo a história: por conta da grande repercussão do caso, a fita amarela foi escolhida como símbolo do programa que incentiva aqueles que têm pensamentos suicidas a buscar ajuda.

Em 2003 a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretou o dia 10 de setembro para ser o Dia Mundial da Prevenção do Suicídio e o amarelo do Mustang de Mike é a cor escolhida para representar esta campanha.

A campanha Setembro Amarelo teve início no Brasil em 2015 pelo Centro de Valorização da Vida (CVV), Conselho Federal de Medicina (CFM) e Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). As primeiras atividades da campanha aconteceram na capital do país, Brasília, e no ano seguinte outras regiões também aderiram ao movimento.

O objetivo do Setembro Amarelo é reforçar a importância do diálogo, quebrando o tabu sobre o assunto e ajudando quem está mais vulnerável.

Em 2017, estava muito popular um vídeo sobre esse mesmo rapaz, essa é apenas uma das versões sobre a origem do Setembro Amarelo, e que até então não se tinha conhecimento de outro país além do Brasil que dedicasse um mês todo à prevenção do suicídio, em um esclarecimento feito pela Elaine, da Comissão Nacional de Estudos. Existem várias versões para o Setembro Amarelo a da Fita Amarela é uma delas.

O Setembro Amarelo surge no Brasil havendo um pequeno e simbólico movimento em 2014, quando da escolha da cor inicialmente isso teve relação com o significado de alerta, atenção, luz, sol, vida, e a escolha do mês de deu por conta do dia 10/09 dia Mundial de Prevenção do Suicídio

O Setembro Amarelo possui um símbolo e um domínio na internet, sua data de criação foi numa quarta-feira, 22 de outubro de 2014 19:17.

www.setembroamarelo.org.br

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