Preconceitos, tabus alimentares e a globalização do gosto

Direto da política para o centro da mesa e do prato, ganhou os holofotes o clássico e manjado Miojo – o trivial e popular macarrão instantâneo de pacotinho encontrado em todo mercadinho de esquina deste País – , colocando na “sombra” e em segundo plano na mídia os festejados peixes crus locais, glória da culinária do país dos samurais. MARCO MERGUIZZO23/10/2019

O sushi massificou-se e hoje é apreciado no mundo todo

O desconhecimento, preconceito e predileções à mesa, é preciso lançar um olhar mais profundo, menos radical e ideologizado sobre essa discussão, que para muitos é no mínimo polêmica, seja à mesa ou fora dela. Comer peixe cru e insetos, como o fazem há milênios os asiáticos, não é nenhuma piração gourmet e bizarrice gastronômica. Tabu alimentar é antes de tudo uma questão cultural, que fique claro.

Acredita-se que o primeiro macarrão instantâneo de baixo custo – batizado de E-fu – tenha sido inventado na China, no século 16. É uma massa semipronta, pré-cozida e, a seguir, frita para ser desidratada e finalizada em água fervente durante alguns minutos, um pouco antes de ir à mesa. O tipo que conhecemos hoje foi criado por Momofuku Ando, um taiwanês que aperfeiçoou a sua técnica de produção, na década de 1910, durante a ocupação japonesa, que patenteou e industrializou a sua própria marca: a popular e conhecida Nissin.

O antológico desenho animado O Rei Leão, de 1994, onde o leãozinho Simba, carnívoro por natureza e instinto, degustava meio que a contragosto lagartas, besouros e lesmas tendo a companhia à mesa dos engraçadíssimos e inseparáveis Pumba e Timão. “Viscoso mas gostoso” era o mantra do espirituoso suricate para convencer o hesitante leãozinho a provar alguns ortópteros pegajosos, o que deve prevalecer, portanto, é a pluralidade gastronômica e a diversidade no prato.

O suricate Timão: o “garçom” dos pitéus viscosos em O Rei Leão. HAKUNA MATATA

Na cena do banquete celebrizado nas telonas de cinema pelo filme Indiana Jones e o Templo da Perdição (1984), em que os representantes da realeza local e os seus convidados se esbaldavam com uma sopa borbulhante de olhos de cabra, um punhado de insetos gigantes bem crocantes e a mais festejada das iguarias indianas servidas aos comensais presentes: cérebro de macaco servido no próprio crânio dos símios. (Confira no final do post).

Enquanto achamos normal comer um ocidentalizado cachorro-quente no carrinho da esquina ou um hambúrguer com fritas, ao melhor estilo fast food, esses alimentos provocariam engulhos em povos indígenas. E o que dizer do sofisticado foie gras – o fígado de ganso gordo ou de pato superalimentado e o método nada civilizado com que ele é obtido? Ou dos queijos malcheirosos como o epoisses, munster franceses? Ou mesmo roquefort e do gorgonzola italiano, nos quais são injetados fungos no processo de envelhecimento que vai de 18 a 24 meses?

“Politicamente incorreto não é comer carne de cachorro ou insetos. Condenável é padronizar o paladar, não respeitando a história e a tradição culinária de um país e das pessoas”, opina o chef de cozinha franco-brasileiro Laurent Suadeau, proprietário de uma escola de gastronomia em São Paulo.

“A gastronomia de um povo está relacionada a fatores históricos, ambientais, econômicos, antropológicos e, portanto, repleta de simbologias”, explica a antropóloga Lux Boelitz Vidal, professora emérita da USP.

Em todas as culturas, há alimentos que podem ser considerados “estranhos” e “bizarros”, mas bastante valorizados e apreciados em alguns países. Já outros, mais conhecidos do nosso paladar, são por vezes proibidos de serem consumidos devido às tradições culturais locais. Caso da Índia, por exemplo, em que cérebro de carneiro é tido como um manjar culinário. Ao contrário de um típico bife ou outro corte bovino que são terminantemente proibidos à mesa, já que a vaca é considerada um animal sagrado.

e as baratas de Madagascar grelhadas: manjares indo-asiáticos …
… versus o hambúrguer com fritas: bizarrice é padronizar o paladar.

Em algumas aldeias indígenas brasileiras, por exemplo, quando uma criança nasce, seus familiares não comem carne de caça. Acreditam que assim manterão a alma do bebê. Mulheres menstruadas ficam isoladas do grupo e também não se alimentam da caça para não atrair maus espíritos. Da mesma forma, alguns pratos são considerados “fortificantes”.

Em alguns Estados brasileiros, quem está precisando de uma “forcinha sexual”, por exemplo, costuma comer testículos de boi, um “viagra natural”. “Embora muitos acreditem estar ingerindo virilidade, não existe nenhuma base científica que comprove tais propriedades. É apenas crença popular”, desmistifica a a professora Elisabeth Torres, do departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública da USP.

Aqui no Brasil, também estamos no mapa de alimentos que costumam beirar à excentricidade, fazem parte do cardápio de muito brasileiro, lagartos, cobras, olhos de cabra, fígado cru, cérebro e testículos de galo e de boi, jacaré, tartaruga e macaco (estes três últimos, vale o parêntesis, são protegidos, inclusive, pela legislação brasileira que busca preservar animais silvestres e as espécies consideradas em extinção.

Formiga no prato: iguaria, a saúva amazônica brilha na alta gastronomia

A formigas tanajura ou saúva amazônica, utilizada na alta gastronomia, como o faz o premiado Alex Atala, famoso chef brasileiro e um dos primeiros a introduzir o inseto no menu de seu restaurante em São Paulo, o premiado D.O.M., servida numa colher de espuma de batata baroa (ou mandioquinha).

A içá, uma espécie de formiga voadora encontrada no vale do Paraíba, no interior paulista, apelidada de “caviar caipira”, é o principal ingrediente da receita de uma famosa farofa. A estação reprodutiva do inseto acontece nos primeiros dias de novembro, período que as içás deixam a colônia para o voo nupcial e, depois do acasalamento, perdem as asas e saem para fundar um novo ninho. É nesse momento que são capturadas para o consumo e deleite de seus apreciadores.

No vale do Paraíba, as içás voadoras: “caviar caipira”

Além da sopa de cachorro (também muito popular na Coréia do Norte), costuma integrar o menu tradicional dos chineses, ninho de andorinha (feita a partir da gosma do pássaro), pênis de cobra ou de tigre, cérebro de macaco, gafanhotos, grilos, escorpiões e outros insetos. Insetos? “Muitas vezes, o gosto por comidas exóticas não é uma questão de opção. Pessoas que moram em países pobres têm de arrumar uma outra fonte de proteína, como os insetos”, explica a nutricionista Neide Rigo, colunista do caderno Paladar do Estadão e autora do blog Come-se.

Criada em tempos de escassez, o prato foi incorporado ao dia a dia chinês

Duas superpotências econômicas, Japão e China, civilizações de histórias milenares, viveram duros e longos períodos de escassez alimentar e essa matriz alimentar alternativa volta a ser cogitada e desenvolvida por vários países, como os Estados Unidos e a Austrália, diante do quadro de mudanças climáticas causadas pelo aquecimento global, o povoamento descontrolado, superpopulação e desertificação do planeta.

Na China, por exemplo, comer órgãos genitais de animais é bastante comum. Há lojas de conveniência que os vendem como afrodisíacos.

Uma panela de sopa de pênis de tigre vendida em Taiwan é um artigo de luxo: custa US$ 350. Seja na capital, Pequim, ou nas províncias espalhadas no interior chinês, pode-se provar, por exemplo, o torresminho de cobra (feito com o couro do ofídio) e a seqüência de gafanhoto frito no espetinho, que tem gosto e é crocante como camarão. É comum a cobra ser morta na frente do freguês. Com ela se produz duas bebidas bastante populares. Uma é feita com o sangue misturado com destilado de arroz. E a outra, um licor elaborado a partir da bílis da cobra, esverdeado – argh! – que, acredita-se, ser afrodisíaca. Ou seja, uma iguaria feita sob medida para fortes e machos.

Autor do livro Strange FoodsBushmeat, Bats, and Butterflies – Extreme Cuisines (Comidas Estranhas: Carnes de animais selvagens, morcegos e borboletas – Cozinhas Extremas), de 1999, o escritor Jerry Hopkins declarou ao jornal norte-americano USA Today que grande parte desses insetos são bem fritos, alguns ficam com gosto do óleo e do sal, como o nosso conhecido camarão no alho e óleo. A única coisa que ele jamais comeu ou comerá na vida é um embrião de pato cru temperado com sal e vinagre, prato filipino bastante popular e que é vendido nas ruas de Manila.

O wagyu é o foie gras das carnes vermelhas, reverenciada nos restaurantes da capital japonesa, um prato de wagyu pode chegar aos 40.000 ienes, próximo de 370 dólares ou a bagatela de 1.500 reais, proveniente da Manchúria e da península coreana, a raça wagyu uma antiga raça de gado negro japonês (wa significa “japonês” e giu, “gado”), foi provavelmente levada ao Japão como animal de carga no início do século II d. C.. Durante pelo menos 1.000 anos, o gado trabalhou nos campos de arroz, antes de ser servido à mesa como alimento. No Brasil, já há também alguns criadores que fazem cruzamentos com excelentes resultados, como é o caso da Beef Passion.

PARA VER E CURTIR:
O REI LEÃO (DISNEY) 1994 – DESENHO ANIMADO – TRAILER
O REI LEÃO (DISNEY) 2019 – O FILME – TRAILER
INDIANA JONE E O TEMPLO DA PERDIÇÃO (1984) – TRAILER

Palavras PerdidasCarne de cachorro no Brazil, Sua comida no Brasil, Segunda sem carne: sete receitas para apostar na semana, PAÇOCA DE CARNE SECA, Ode a carne, Frutas e verduras que gatos podem comer e o detox, Mitos Sobre A Alimentação

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