BRANCA ALVES DE LIMA

Apesar de, infelizmente pouco conhecida, esta é “Branca Alves de Lima”, criadora da Cartilha CAMINHO SUAVE.

Branca nasceu em São Paulo em 1911 e faleceu em 2001, com 91 anos, injustamente esquecida, pois concebeu em meados do século passado, a cartilha ‘Caminho Suave’.  Mais de 48 milhões dos brasileiros adultos de hoje foram alfabetizados por ela. MGSNEWSTV

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A Cartilha Caminho Suave é o livro escolar de maior tiragem e circulação na história da educação brasileira. Sua autora não alcançou a mesma divulgação de seu impresso escolar, a despeito de, em cinco décadas, ser a responsável pelo sucesso de sua publicação. A história da professora normalista, alfabetizadora, autora e também empresária, pois criou uma editora com o mesmo nome da cartilha, se confunde com seu material didático, ou se apaga no meio de disputas do conhecimento tão próprias da história. As lacunas na história de Branca são grandes, no entanto, reunir fontes dispersas possibilitou conhecer alguns lugares ocupados pela professora em seu quase um século de vida. Branca foi uma mulher de seu tempo, fora de seu tempo. Diane Valdez – Universidade Federal de Goiás (UFG)

Devemos muito da alfabetização do nosso país a essa educadora. Por um dever moral espalhemos o nome e a história de Branca Alves de Lima! À sua memória, nosso carinho e gratidão pela vida dedicada à educação com amor e dignidade. Todos que aprenderam a ler e a escrever antes de meados da década de 90 lembram o quão agradável era, a cada semana, aprender com a cartilha uma silaba nova e todo um conjunto novo de palavras.

O falecimento de ‘Dona’ Branca não mobilizou o mundo educativo e nem a imprensa. Consegui localizar nada mais que um anúncio fúnebre sem pompa, um anúncio padronizado, silencioso, discreto e tímido em uma coluna intitulada “Falecimentos”, no rodapé de matérias sobre violência na capital:

“Prof. Branca Alves de Lima – dia 21. Professora e escritora, era autora da cartilha Caminho Suave. Filha do sr. Manuel Silveira Lima e de d. Isaura Alves de Lima, era irmã do dr. Álvaro Alves de Lima, de D. Henriqueta Alves de Lima e de Altair Alves de Lima Liguori, todos falecidos. Deixa cunhada e sobrinhos. A missa de sétimo dia será celebrada no dia 27 (sábado) as 7.30, na Igreja de Santo Agostinho, na Praça Santo Agostinho, Aclimação. (O Estado de São Paulo, 25 de janeiro de 2001, p. 11)”

Branca Alves de Lima, nasceu, viveu e morreu na capital, São Paulo, no entanto não foi possível encontrar dados sobre a infância e adolescência da menina que nasceu em um agosto de 1910, na região do Brás. Hoje sinônimo de comércio, a região do Brás foi palco de uma histórica luta operária na industrialização e homenageia um compatriota dos pais de Branca, português e proprietário de terras: Benemérito José Brás. Nas primeiras décadas do século XX, a região era rural e abrigava imigrantes, sobretudo italianos e portugueses. A outra moradia de Branca foi na região de Fagundes e depois Liberdade, onde morou até sua morte no ano de 2001. Planalto em Pauta

Na região do Brás, foi criado na década de noventa do século XIX o Grupo Escolar Romão Puiggari, uma escola de referência para os filhos dos imigrantes com dificuldade na língua. O espanhol Romão Puiggari foi professor da Escola Normal de São Paulo e, assim como Branca, foi autor de livros escolares. Acompanhado do professor Arnaldo Barreto, lançaram no ano de 1895, pela livraria Francisco Alves, a série de quatro volumes de seus livros de leitura da série Puiggari-Barreto, que conquistou em 1904 a medalha de prata na Exposição Universal nos Estados Unidos, conforme afirmou Valdez (2004). Neste Grupo Escolar, Branca foi professora, conforme será abordado posteriormente.

O que temos de mais concreto é sua formação na Escola Normal do Brás, estabelecimento constantemente citado como formação máxima da professora. A Escola Normal do Brás, criada quase junto com o nascimento de Branca, 1912, faz parte de um projeto de expansão de escolas destinadas à formação de docentes para cumprir as exigências republicanas do ensino primário.

As escolas normais públicas surgiram no Império brasileiro, na primeira metade do século XIX, no entanto coexistiram, historicamente, com os conflitos do público com o privado, tornando-se espaços, muitas vezes, frágeis, efêmeros e repletos de continuidades e descontinuidades, consolidando-se, sobretudo, na segunda metade do Brasil oitocentista.

Em entrevista dada no ano de 1967, Branca registrou sua preocupação com o processo de alfabetização, que iniciou nos anos vinte quando frequentou essa Escola, Antes mesmo de concluir o curso, em 1929, já lecionava:

“Na Escola eu aprendi a ensinar pelo método analítico puro – hoje chamado global – e, em 1931, ingressei no magistério público e apliquei este método por cinco anos. Mas foi uma decepção; não tive os resultados esperados. Então resolvi ir modificando, por baixo do pano, passando a usar o analítico sintético, mas partindo da palavra (O Estado de São Paulo, 20 de agosto de 1967, p. 19)”

Com o diploma de normalista em mãos, aos dezenove anos, Branca iniciou sua jornada em escolas no interior de São Paulo. Em entrevista dada ao jornal O Estado de São Paulo, no ano de 1991, registrou que iniciou sua carreira profissional em uma escola rural de Jaboticabal, pois naquela época, segundo ela, no início da carreira era preciso lecionar, no mínimo, um ano na zona rural e aprovar, alfabetizando, no mínimo quinze alunos, para depois poder dar aulas em uma classe de uma boa escola urbana.

No ano de 1936, com vinte e cinco anos, a jovem professora lecionava em um grupo escolar de São José do Rio Preto, onde iniciou experiências de alfabetização com imagens associadas às sílabas, obtendo bons resultados.

O método analítico, também conhecido como “método olhar-e-dizer”, defende que a leitura é um ato global e audiovisual. Partindo deste princípio, os seguidores do método começam a trabalhar a partir de unidades completas de linguagem para depois dividi-las em partes menores. Por exemplo, a criança parte da frase para extrair as palavras e, depois, dividi-las em unidades mais simples, as sílabas.

Os métodos de alfabetização podem ser divididos em dois grandes grupos: os sintéticos, do micro para o macro (primeiro as letras, depois as sílabas e, em seguida, palavras e textos); e os analíticos, do macro para o micro, que partem da leitura da palavra e das frases para apenas depois destacar as sílabas e letras.

Na cartilha Caminho Suave o material apresenta inicialmente as vogais, depois forma encontros vocálicos e parte para a silabação.

Com o objetivo de orientar o trabalho a ser desenvolvido a cartilha era acompanhada por um Manual do Professor, aonde cada lição era antecedida de uma história associando os personagens às palavras-chave, seguida de orientações de como apresentar o cartaz correspondente à palavra-imagem.

Falar sobre a autora remete a outro espaço também ocupado, um longo tempo, por Branca: o de empresária em sua Editora Caminho Suave Limitada, criada especialmente para publicar seus livros de forma autônoma. Vale registrar que, pelo menos até o ano de 1965, consta na Cartilha que os direitos autorais são reservados à Editora e Distribuidora Branca Alves de Lima, nome da editora, fato que ressalta uma personificação sem igual.

Branca registrou que o tempo percorrido na carreira de professora, até alcançar o posto de autora, foi de cerca de duas décadas. No entanto, de autora para proprietária e empresária, o tempo encurtou para cerca de dois anos.

“Procurei todas as grandes editoras da época, mas elas não acreditavam que o livro fosse vender”, revela. A solução foi pagar a edição inicial com sua poupança de 20 contos de réis, o suficiente para imprimir 5 mil exemplares. “Nos dois primeiros anos tive prejuízo, mas no terceiro comecei a ganhar dinheiro”. (O Estado de São Paulo, 05 de maio de 1991, p. 22)

Eu estava juntando dinheiro e já tinha vinte mil cruzeiros antigos e, com essa importância, mandei publicar cinco mil exemplares. Distribuí cerca de mil em propaganda e, depois, mandei imprimir mais cinco mil. (O Estado de São Paulo, 20 de agosto de 1967, p. 19)

A Editora Caminho Suave Limitada, ao que tudo indica, era uma empresa familiar. Além de Branca, que assumia a frente da empresa, o pai, Manoel, como já foi registrado, ocupou o cargo de sócio-diretor até o ano de 1977, quando faleceu, e seu cunhado, Ernani Liguori, de formação empresarial, casado com a irmã caçula de Branca, Altair Alves de Lima Liguori, assumia a responsabilidade de Gerente Comercial. Neste aspecto, certamente, a empresa abrigava outras pessoas da família, pois empresas familiares eram um modelo de administração tradicional e bastante comum no Brasil na primeira metade do século XX.

No ano de 1997, após ter seus livros recusados pelo Governo, Branca voltou a sinalizar como construiu seu modelo de ensino:

Na década de trinta, (…) a prática “em moda” para alfabetização se chamava processo analítico. Depois de 21 anos chegaram à conclusão que não funcionava e deram liberdade didática aos professores. Aí comecei a construir o meu sistema, de imagens. Fiz uma porção de cartazes. Mas, no começo, as figuras não eram associadas às letras. (Folha de São Paulo, 25 de novembro de 1997, p. 10).

Um dia estava olhando meus cartazes e tive um insight. Comecei a desenhar com giz em cima dos cartazes. No G, desenhei um gato e disse “Veja como a letra G se parece com um gato”. Depois, no F, desenhei uma faca. Percebi que as crianças, associando uma letra a uma figura, esqueciam menos. (Ibidem).

Os livros de Branca ficaram fora da aquisição e da distribuição pública. Distintas matérias da imprensa divulgaram o que parecia inesperado: a campeã de vendas estava fora do páreo, suas obras foram consideradas inapropriadas e não foram contempladas com nenhuma estrela. Branca ficou sem chão e sua editora foi fechada em 1997, dado que aponta a importância da compra dos livros de Branca de forma oficial.

O jornal Folha de São Paulo, no final do ano de 1997, trouxe dois textos, intitulados “Autora de Caminho Suave pesquisou palavras” e “Pioneira associou letras e imagens”, ilustrados com uma foto de cartilhas empilhadas sob a seguinte legenda: “Cartilhas Caminho Suave que não foram vendidas na sede da Edipro”. A matéria deu voz à professora Branca Alves de Lima, na época com 87 anos, ressaltando que sua Cartilha alfabetizou um quarto da população brasileira. Neste momento, sob a disputa entre o construtivismo e o ensino
tradicional, Branca declarou em tom crítico:

(…) ao final de diversos anos é que se vai chegar à conclusão se o construtivismo dá ou não resultados (Folha de São Paulo, 25 de novembro de 1997, p. 10).

Estão projetando, quase decretando, que os alunos não usem mais cartilhas (Ibidem).

Eu gostaria até de adotar (o construtivismo) para chegar a uma conclusão. Mas, hoje, eu escuto mal e enxergo mal (Ibidem).

Esta é a modesta e sincera homenagem que posso agora prestar como tributo de gratidão, a memória daquela que, sob moldes humaníssimos e quase maternos, abriu-me a réstea de luz da alfabetização da cartilha “Caminho Suave” de nossa educadora paulista, Branca Alves de Lima. Nelson Valente

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Suaze-se: Paulo Freire plagiou professor americano e destruiu a educação brasileira, Vovô Tech e outras aulas grátis para idosos, Marx escreve uma carta de repúdio ao professor, Quem ama, educa!?!, Olimpíadas Brasileiras de Astronomia e Astronáutica, Ausonia Donato, entre outras.

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