Tiny Houses: minha doce casinha

Se você tivesse que se mudar amanhã para um espaço de 25 m² – algo como dois quartos de um apartamento pequeno somados – o que você levaria?

Viver com menos e em espaços reduzidos virou o sonho de muita gente – uma tendência que dá um chega pra lá no consumo excessivo e propõe um viva ao minimalismo. ELIANAELLE

A economia é um aspecto forte da novidade. Não é à toa que essas moradias, que mais parecem casas de boneca, mexem tanto com o imaginário e provocam um certo encantamento.

“Minimalismo”. O termo já foi amplamente usado para descrever movimentos artísticos, estilos de decoração, linguagem arquitetônicas e até mesmo uma teoria gramatical. Hoje, porém, retorna ao nosso vocabulário, e aos blogs, livros, documentários e redes sociais, com um significado bem mais amplo, que resume não só um modo de consumir ou de criar, mas um verdadeiro estilo de vida.

O minimalismo e a sustentabilidade também são pontos centrais no projeto de vida do casal Robson Lunardi e Isabel Albornoz (que aparecem na foto com o filho João Pedro), criadores do blog Pés Descalços, onde contam um pouco de suas trajetórias – de profissionais estressados, que enfrentaram a síndrome de burnout trabalhando 14 horas por dia anos a fio, a adeptos da yoga, da meditação, da alimentação saudável, pais de duas crianças e moradores de uma tiny house sobre rodas, de 27 m².

Robson fez um curso focado em técnicas de construção. E Bel, que ainda relutava em aceitar a ideia da mudança, mergulhou em aulas com mulheres que haviam feito suas próprias tiny houses, e voltou decidida.

“Aos poucos, entendemos que não era só uma casinha, mas um estilo de vida, um espaço compactado, multifuncional, mais sustentável e minimalista”

O quarto das crianças.

Hoje, dão consultoria sobre o tema e mantêm o projeto Colibri, que pretende erguer minicasas como moradia de baixo custo para pessoas em situação de vulnerabilidade. “O movimento tiny house não é sobre o espaço, mas sobre como você o utiliza. É um estilo de vida que estimula a maximização do convívio e a ética social.”, diz Robson, lembrando que nas casas tradicionais é muito comum que cada um fique isolado em um cômodo interagindo muito pouco – algo que não tem chance de acontecer no caso deles.

Os dois costumam dizer que tudo de fundamental, de cada um na família, deve caber em uma mochila. E são a prova de que viajar leve é libertação.

PLANEJAMENTO DE ROBSON E ISABEL

No caso do banheiro, um dos grandes tabus da Tiny Houses, as saídas são diversas. Robson, por exemplo, conta que nas casas em que visitou a solução mais prática era a chamada “privada seca”, que funcionam como uma espécie de composteira. Já o arquiteto Danilo Cobras, fundador da Contair Box, que desde 2009 projeta casas em containers, conta que é possível produzir modelos com caixa de detritos e caixa d’água, conforme a necessidade de cada cliente. Além é claro da possibilidade de conectar a Tiny House ao um sistema comum de água e esgoto.

O movimento começou no finzinho dos anos 1990 nos Estados Unidos e ganhou força com a crise econômica que chacoalhou o país a partir de 2008. Com o mercado imobiliário regido por uma legislação dura, que proíbe habitações improvisadas, hipotecas se transformando em dívidas altas e taxas exorbitantes, a construção de tiny houses surgiu como uma saída perfeita para os estadunidenses endividados. Uma solução que acabou se espalhando pelo planeta. “Construir uma casa e legalizá-la é um processo caríssimo, que pode envolver financiamentos de até 30 anos. As pessoas acabam de pagar quando chegam aos 60 anos. Na Austrália, as tiny houses seguem a legislação dos motorhomes e não precisam de aprovação das subprefeituras, um processo burocrático e custoso”, conta Thiago Marega Perrone, brasileiro que vive há quase 14 anos no país, onde comanda, junto com o sócio, a Aussie Tiny Houses, que fabrica casas com área entre 11,52 m e 20,16 m², em 12 modelos diferentes. 

A cozinha, onde se concentra a maior parte dos armários, deve ser um cômodo estratégico na casa.

Adoro Cinema

O assunto rendeu série (Movimento Tiny House, que já está na quarta temporada, duas delas disponíveis na Netflix), tem virado opção de hospedagem via Airbnb mundo afora.

A japonesa Muji criou a Mujihut, uma cabana de madeira de 9 m², feita de cedro e pinho, com técnicas tradicionais da construção naval japonesa. Cada unidade custa 3 milhões de ienes (cerca de 156 mil reais) e pode ser colocada em qualquer lugar à escolha do cliente. Uma grande porta de vidro corrediça amplia a iluminação e a ventilação naturais, enquanto o pé direito alto e a varanda garantem a sensação de um espaço maior, suficiente para quatro pessoas relaxarem.

12 dicas importantes para quem pensa em morar em uma tiny house

  1. O primeiro passo é uma sessão hard core de desapego. Livre-se de tudo que não for essencial.
  2. Defina o que é prioridade para você: receber amigos, cozinhar, home office… As respostas vão definir a organização dos espaços.
  3. Cores claras e decoração clean ampliam a sensação de amplitude e conforto.
  4. Tudo tem um lugar definido. Por isso é importante pensar onde cada objeto vai ser guardado, seja uma guitarra ou um liquidificador.
  5. O mesmo cômodo tem várias funções: uma sala pode virar home theater, home office, espaço para as crianças brincarem ou quarto de hóspedes.
  6. A posição da cozinha é uma das mais importantes no projeto, já que ela vai abrigar a maior parte dos armários. Em geral, há apenas um fogão de duas bocas. Mas não se desespere. Quantas vezes na vida você usou quatro bocas ao mesmo tempo?
  7. Nada de espaços mortos. Cada cantinho deve ser otimizado com armários inteligentes, nichos, gavetas e organizadores articulados.
  8. Dobre o tamanho da casa com um deque do lado de fora. Isso cria outro ambiente. É como uma sala de estar externa.
  9. Acostume-se com a ideia de subir uma escadinha para acessar o quarto no mezanino. Diferentemente das escadas comuns, ela pode ser mais íngreme e com espaço menor entre os degraus.
  10. Janelas grandes, numerosas e bem localizadas maximizam a luminosidade e a ventilação naturais. Se a casa for sobre rodas, sempre se pode manobrá-la para conseguir uma insolação maior.
  11. Sustentabilidade faz parte do pacote. Considere o uso de uma composteira para o lixo orgânico, de um banheiro seco, que não gere esgoto, e de placas para captar energia solar. Se usar energia elétrica, basta conectar a casa em um quadro de luz ou até mesmo em uma tomada em um posto de gasolina.
  12. Para o abastecimento hidráulico, uma boa saída é o sistema off grid, que filtra água de um poço ou de um lago e, por meio de bombas, faz a distribuição pela casa.

Luz, água quente, internet, janelas amplas e até terraço também fazem parte do projeto de boa parte das Tiny Houses, que embora sejam muito usadas por quem escolhe um estilo de vida mais “nômade”, tem como princípio se parecer mais com uma casa confortável, na qual é possível viver para o resto da vida, do que, simplesmente, com um trailer ou uma morada temporária.

Para os adeptos dessa filosofia, a Tiny House não chega a ter defeitos – mas alguns desafios. Não há, por exemplo, portas que delimitem boa parte dos espaços, o que significa que, de uma forma ou de outra, tudo o que é feito na casa afeta todos os seus moradores.

Em geral, quem tem uma Tiny House alerta: ela não é uma casa barata de se fazer. No Brasil, a Container Box, por exemplo, estima que a construção de sua versão, dependendo dos acessórios escolhidos pelo cliente, deve  variar de 90 e 180 mil reais.

A grande vantagem, porém, vem na hora de morar. Com menos espaço, contas básicas, como água, luz e supermercado, diminuem. Em alguns lugares, soma-se a isso alguns descontos em impostos, já que a casa é pequena e muitas vezes não está fixa em um terreno.  Isso sem contar que, com pouco espaço para ocupar, você vai, naturalmente, comprar muito menos.

Vogue

No levantamento feito publicado pela Living Big in a Tiny House, foi apurado, por exemplo, que 55% das pessoas que vivem em uma Tiny House tem mais dinheiro guardado do que a média americana.

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