Os homens preferem a calma bruta da escravidão

“O grande inquisidor” é uma criação literária especialíssima de Dostoievski, inserida em “Os Irmãos Karamazov”. O genial escritor russo criou, dentro desta obra imortal, um capítulo especial sob o formato de uma lenda antiga, dedicado à denúncia da manipulação religiosa feita pela Igreja Católica durante a “Santa Inquisição”. Carlos Russo Jr.Espaço Literário Marcel Proust

A lenda é prometeica pois ao fincar os pés no passado, permitiu tanto ontem como hoje antever o futuro manipulável da sociedade de massas. A religiosidade utilitária aponta tanto para as recusas de liberdade real nas sociedades modernas e pós-modernas, quanto para formas tão somente exteriores das denominadas “democracias representativas”.

Ao mesmo tempo, este capítulo essencial de “Irmãos Karamazovi”, prenuncia profético os regimes totalitários do século XX e que ensaiam sua retomada no século XXI, como o controle do pensamento através de mentiras, do medo e de montagem de “histórias”. Antecipa também o prazer brutal imbecilizadas e dominadas das Danças de Nuremberg nazista, das massas ensandecidas na “Revolução Cultural” chinesa, assim como no Estádio de Moscou stalinista.

Nos dias de hoje segue sendo um sinal de alerta para as recusas de liberdade, para a invasão das privacidades, para as parvoíces hipócritas, para as mentiras, que “viralizadas” milhares e milhões de vezes, passam a ser são tidas como verdades.

Para o Inquisidor os homens conhecerão a felicidade somente quando um reino perfeitamente regulado for estabelecido sobre a terra, sob os auspícios dos milagres, da autoridade da Igreja e da “mano militari” e do pão.

Ao Inquisidor também se incorpora a ideia de um Falso Messias, um Anticristo, daquele que também viveu no deserto, alimentou-se de gafanhoto e mel e ofereceu a Cristo a tríplice tentação: os milagres, o pão e a autoridade, dos quais seriam decorrentes as Igrejas e o Estado.

Logo, as Igrejas punitivistas são as principais responsáveis por privarem os homens de sua liberdade essencial, interpondo entre Deus e a agonia da alma individual, a segurança da absolvição e dos mistérios dos rituais.

De um lado teremos o Inquisidor que era a seu modo autoritário um “progressista”, dado que tinha uma crença radical no progresso humano através de meios materiais, a qual aliava uma crença na razão pragmática.

De outro, um Cristo dostoiévskiano que não é um beato, um santo, mas humano, profundamente humano, parafraseando Nietzsche. Pois Dostoiévski, além do Inquisidor, também traçou o retrato de “seu Cristo” na lenda.

Os famintos, desiludidos, os desesperados “nos procurarão e depositarão sua liberdade a nossos pés dizendo: ‘reduzi-nos à escravidão, mas alimentai-nos’. Compreenderão que a liberdade e o pão da terra à vontade para cada um são irreconciliáveis, pois jamais saberão reparti-lo entre si. A impotência para a liberdade ocorre por serem fracos, depravados, nulos e revoltados. As multidões sendo fracas e, embora depravadas e revoltosas, tornar-se-ão dóceis.”

“Para dispor da liberdade dos homens é preciso dar-lhes paz de consciência… nisto Tu tinhas razão porque o segredo da existência humana consiste não somente em viver, mas ainda em encontrar um motivo pelo qual viver. Sem uma ideia nítida de sua finalidade, prefere o homem a ela renunciar e se destruirá embora cercado por montes de pão. Esqueceste-Te de que o homem prefere a paz e até mesmo a morte à liberdade de discernir o bem do mal? Não há nada de mais sedutor para o homem que o livre-arbítrio, mas também, nada de mais doloroso.”

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