Preconceitos, padrões, estigmas e outras anomalias

Todas essas célebres pessoas possuem origem negra, direta ou indiretamente, ainda que a maioria de nós jamais tenha sequer tomado conhecimento desse fato.

Algumas pessoas históricas, em diversas áreas, são simplesmente consideradas brancas como que por decreto (e muitas vezes retratadas em pinturas, textos ou filmes, como tal), ainda que suas origens, ou mesmo suas evidentes feições e cor da pele sejam negras. Vivimetaliun

No Brasil,  é o exemplo mais claro: negro, o maior escritor do Brasil muitas vezes foi “embranquecido” em fotografias tratadas graficamente, em documentos ou textos, e sua origem racial não costuma ser sequer mencionada. Mas, na perspectiva global histórica, Machado está longe de ser o único nome a ter sido “reposicionado” de tal forma pela história.

Machado de Assis, um dos maiores nomes da literatura brasileira, nasceu no Rio de Janeiro em 21 de junho de 1839, filho de um mestiço brasileiro, que trabalhava como pintor de paredes, e uma imigrante açoriana, que trabalhava como lavadeira. Assim, enfrentou muitas das dificuldades comuns aos mestiços da época, como o acesso limitado à educação formal, o que o levou a ter uma formação quase que completamente autodidata. Luísa Pessoa – Buzzfeed

(…) “o embranquecimento de Machado é produto da apropriação da sua memória por parte de homens que o queriam branco, para legitimar um projeto de país em que pessoas negras seriam apenas resquícios de um passado que se queria esconder e quiçá esquecer”.  Ana Flávia Magalhães Pinto (Universidade de Brasília), O Globo

Em 2011, Machado foi retratado em uma propaganda da Caixa Econômica Federal como um homem branco. Após inúmeras críticas e uma queixa formal da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República, o banco suspendeu a veiculação da peça publicitária e em nota pediu desculpas pelo erro.

EDIT_Betty Boop

A Betty Boop (foto acima)  “de verdade” era negra – ou ao menos a pessoa em quem ela foi inspirada. A cantora Esther Jones e sua interpretação no palco foi quem inspirou o cartunista Max Fleischer a criar a personagem Betty Boop. Esther passou a vida lutando pelos diretos da personagem que, em verdade (e em sua pele negra) ela interpretava no palco.

Francisca Edwiges Neves Gonzaga nasceu no Rio de Janeiro em 17 de outubro de 1847, filha de um casal inter-racial. Seu pai, branco, era general do Exército Imperial Brasileiro e sua mãe, negra, era filha de escravizada (a abolição da escravatura no Brasil, vale lembrar, só viria a ocorrer em 1888).

Compositora, pianista e maestrina, Chiquinha Gonzaga ficou conhecida por músicas que entraram para imaginário popular brasileiro, como a marchinha de Carnaval “Ô Abre Alas”, em 1889.

Ainda que tenha tido uma formação aristocrata, sendo educada por professores da elite carioca – como o Maestro Lobo –, Chiquinha frequentava na infância rodas de lundu, umbigo e outros ritmos africanos comuns em rodas de escravos, experiência que influenciou posteriormente sua produção musical.

Apesar disso, a compositora foi representava na série de TV “Chiquinha Gonzaga”, em 1999, pelas atrizes Gabriela e Regina Duarte, brancas.

EDIT_Medici

A origem da família Médici vem de uma mãe ítalo-africana, de origem moura, que se casou com um branco – que mais tarde se tornaria o papa Clemente VII. De qualquer forma, a mais importante família europeia da época era de origem negra, goste a história ou não.

Antônio Gonçalves Dias é outro importante nome da literatura brasileira, tendo ficado conhecido por seus poemas nacionalistas, como “Canção do Exílio”, e sua contribuição ao romantismo indigenista, nasceu em 1823 em Caxias, no Maranhão. Seu pai era um comerciante português e sua mãe mestiça, de ascendência indígena e africana.

Por suas raízes, o escritor foi impedido de se casar com a moça que cortejava, Ana Amélia Ferreira (que era filha de portugueses), para quem dedicou vários de seus poemas.

Além de escritor, Gonçalves Dias também trabalhou como etnógrafo para a Comissão Científica do Império, onde estudou as populações indígenas brasileiras.

EDIT_Jacqueline Onassis

Seria, afinal, Michelle Obama a única primeira-dama negra a ocupar a Casa Branca? Segundo a história da família Van Seele, da qual Jacqueline Kennedy fazia parte, não. Um ancestral de Jackie foi o primeiro negro norte-americano a se tornar doutor no país, e seu pai era conhecido “Jack negro”, por sua pele morena.

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Nilo Peçanha era vice de Afonso Pena e, com a morte do último, assumiu a Presidência da República entre 1909 e 1910. Foi o primeiro mestiço a chegar ao mais alto cargo do Poder Executivo do Brasil. A cor de Nilo influenciou tanto sua carreira política como sua vida pessoal.

Nilo nasceu em Campos de Goytacazes (Rio de Janeiro) em 1867 e era filho de um padeiro e uma mulher ligada à aristocracia local. Ele teve uma infância humilde e, em Recife, se formou em Direito, entrando para a política com a mudança do regime da Monarquia para a República.

O casamento de Nilo com Anita de Castro Belisário Soares de Sousa, por exemplo, só ocorreu depois que a moça fugiu de casa, já que sua família – aristocrata – era contra sua união com um pretendente mestiço e de origem pobre, ainda que com um futuro promissor na política. Também na imprensa Nilo costumava ser ridicularizado pela cor da sua pele.

Na Presidência seu mandato ficou marcado pelo incentivo ao ensino técnico-profissional, pela reorganização do Ministério da Cultura e pela criação do Serviço de Proteção ao Índio.

EDIT_Alexandre Dumas

O autor de Os Três Mosqueteiros e O Conde de Monte Cristo, Alexandre Dumas era filho de um general branco com uma escrava negra. Seus traços negros são evidentes em fotografias e registros, mas em muitas representações artísticas Dumas é retratado como um homem branco – o que nublou historicamente a verdadeira origem do escritor.

O engenheiro, geógrafo e escritor Theodoro Fernandes Sampaio nasceu em um engenho na cidade de Santo Amaro da Purificação (Bahia) em 1855, filho de Domingas de Paixão, uma mulher escravizada. Sua paternidade nunca foi declarada. Algumas fontes acreditam que ele era filho do senhor de engenhooutras que era do capelão local, o padre Manoel Fernandes Sampaio.

A paternidade branca presumida evitou que ele fosse escravizado e, ainda criança foi levado ao Rio de Janeiro por Manoel para estudar, onde se formou em engenharia civil. Sampaio trabalhou como engenheiro-chefe de obras e melhoramentos para navegação no rio São Francisco e, na cidade de São Paulo, foi chefe da repartição de Águas e Esgotos. Além disso, era colaborador do jornal “O Estado de S.Paulo” e foi um dos fundadores do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.

“Durante o Brasil Imperial (1822-1889) conheceu-se pequena abertura que permitiu a presença de alguns poucos pretos e mulatos na corte. Mas tal inserção foi minoritária e problemática.  Não por acaso Sampaio silenciou sobre sua paternidade, como foi ‘discreto’ acerca da história de sua família, ainda mais de sua mãe e irmãos, por quem, ao que tudo indica, pagou pela liberdade.” escreveu a historiadora Lilia Moritz Schwarcz na “Folha” em 2011.

EDIT_Beethoven

A feição, os cabelos e a cor de pele do compositor alemão Ludwig Van Beethoven fizeram com que ele fosse conhecido entre os amigos como “espanhol”. A região onde nasceu e seu histórico familiar mostram que Beethoven tinha sim sangue mouro em suas veias, possivelmente também como descendente de escravos emigrados de colônias holandesas. Não são poucos os livros e documentos que relatam não só as características físicas que o diferenciavam, como a história de sua família e região, apontando para esse rico passado.

EDIT_Santa Claus

Para além do caloroso debate sobre a existência ou não de Papai Noel, o personagem no qual o bom velhinho foi inspirado era, sem dúvida, de pele escura e origem negra. São Nicolau, o santo de onde a lenda foi construída, nasceu na região onde hoje fica a Turquia, em torno do ano 300 antes de Cristo. Nessa época, a região da Turquia era uma metrópole habitada quase que integralmente por povos de origem africana – assim como revelam os retratos criados de São Nicolau.

EDIT_Saint Augustine

Um dos mais importantes personagens da história do cristianismo, Santo Agostinho é também fundamental para os estudos básicos de filosofia e teologia. Pouco se fala, porém, das origens geográficas e raciais do santo, que nasceu onde hoje fica a Algéria. Pinturas e documentos mais antigos, porém, confirmam não só a importância e sabedoria como a cor da pele de Santo Agostinho.

Carlos Gomes, autor da ópera O Guarani, foi um dos mais importantes compositores brasileiros, nascido em Campinas (São Paulo) em 11 de julho de 1836, era filho de pai negro e mãe possivelmente descendente de índios.

O pai de Carlos Gomes – Manuel José Gomes, conhecido como Maneco Músico – o introduziu ainda criança no universo artístico e, aos dez anos, ele já sabia tocar diversos instrumentos.

Jovem, se mudou para o Rio de Janeiro contra a vontade do pai para estudar no conservatório da cidade. Lá, se destacou pela composição de suas duas primeiras óperas e foi condecorado por D. Pedro 2º. O imperador tornou-se seu mecenas e lhe deu uma bolsa para estudar na Europa, onde Carlos Gomes solidificou sua fama e carreira.

EDIT_Clark Gable

Um dos maiores galãs de Hollywood de todos os tempos, Clark Gable não só não escondia como tinha orgulho de sua origem, tanto negra quanto de povos nativos americanos. Não por acaso, quando soube que os banheiros do set de …E O Vento Levou eram segregados entre brancos e negros, Gable se recusou a seguir filmando até que todos fossem tratados iguais. Hypeness

EDIT_Queen Charlotte

O motivo pelo qual a Rainha Charlotte, da Inglaterra, até hoje não é admitida como de origem moura só pode ser um: isso faz com que a atual rainha Elizabeth II, assim como seus herdeiros Charles, e Williams sejam tecnicamente mestiços. Mas o fato é que Charlotte era portuguesa, de uma família que sim começou com uma moura como matriarca. Um pintor do século XVIII, responsável pela pintura acima, foi morto em água fervente por registrar Charlote de forma “excessivamente realista” – o que define perfeitamente de que forma o racismo é disseminado ao longo do tempos.

A última rainha do Egito não tinha traços ou origem branca, sendo frequentemente representada como uma bela mulher branca em pinturas, filmes e nas mais diversas formas de arte. De naturalidade egípcia, a rainha não tinha os traços europeus que as artes tentaram exibir, mas sim traços de negros do norte da África. PH MOTA – Fatos desconhecidos

Segundo o estudo, são sobretudo o formato e as dimensões do crânio de Arsinoe que indicam que ela possuía características físicas de africana – e, se essa é a sua ascendência, pela lógica também deve ser a de sua irmã. É certo que seu ancestral Ptolomeu, que se tornou governante do Egito por ordem de Alexandre, o Grande, complica um pouco a situação pelo fato de ele ser da Macedônia. Mas análises antropológicas e arquitetônicas da tumba acabaram convencendo os especialistas de que Cleópatra realmente descendeu de negros e não corria sangue de macedônios em suas veias. “Tudo indica que ela tinha o rosto em formato alongado, traço típico de africanos da Antiguidade. Cleópatra possuía genes da raça negra”, diz o cientista austríaco Hilke Thuer. Isto É

Apesar da importância do personagem, esse caso é difícil de debater. Jesus, segundo a mitologia, nasceu na África – como afirmam os evangelhos, numa região que hoje, especialmente depois da construção do canal de Suez, se tornou o Oriente Médio. Logo, a hipótese do Jesus loiro de olhos azuis é totalmente absurda e descartável – disseminada a partir da arte religiosa da renascença. Jesus compartilharia do fenótipo árabe, de pele escura.

EDIT_Jesus

Representação criada em computador de como seria de fato o rosto de Jesus

Não há, na Bíblia, nenhum menção específica aos traços de Jesus, citado somente como um “homem comum” – coisa que, na região, jamais seria loiro de olhos azuis.

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A descrição mais próxima da sua forma física se encontra no livro de Isaías, que diz: “Ele não tinha qualquer beleza ou majestade que nos atraísse, nada em sua aparência para que o desejássemos”.

O termo “mulato” foi substituído por “mestiço”. Embora tenhamos utilizado a palavra no contexto acadêmico tradicional, entendendo-a como derivado do árabe muallad (nascido de pai árabe e de mãe estrangeira, ou de pai escravo e de mãe livre), no Brasil o termo é popularmente entendido como um derivado do animal mula.

Azzize-se: Michael Aboya, Os heróis anônimos que emprestaram seus corpos à luta pelos direitos civis nos EUA, Alexandra Baldeh Loras, Histórias Afro-Atlânticas, África Liberdade, Os índios nos gibis., A afilhada da rainha Vitória, A revolução dos bichos humanos, SIGNOS, ORIXÁS E PLANETAS, Candelária, Join The DNA Journey

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