Gripe Espanhola

É UM CRIME gritar “fogo!” num teatro cheio, mas também deveria ser um crime gritar “está tudo ok, fiquem sentados e assistam à peça!” num teatro que está sendo consumido por chamas. As pessoas precisam saber do risco.

A Organização Mundial da Saúde declarou que a Europa agora é o epicentro do vírus, e não a Ásia. Isso porque a China foi muito eficaz e organizada em suas medidas de contenção, e a Coreia do Sul também reagiu rapidamente para providenciar muitos testes e identificar casos logo, antes que a doença se espalhasse ainda mais. Japão, Taiwan, Singapura, Tailândia e Hong Kong foram ainda mais preparados.

O gráfico mostra a taxa de mortalidade pelo surto de gripe espanhola de 1918 em duas cidades dos EUA. Saint Louis imediatamente fechou todos os espaços públicos após descobrir que a doença tinha chegado. Enquanto isso, a Filadélfia decidiu realizar uma grande festa de rua. Andrew Fishman

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Gráfico: Proceedings of the National Academy of Sciences. Intercept Brasil

No Brasil, estabelecimentos foram fechados, aglomerações foram proibidas. Fiéis foram desaconselhados até a ir a missas. “Muita gente adoeceu, em grandes e pequenas cidades. Houve lugares em que mais da metade da população ficou doente e não havia quem cuidasse dos infectados”, afirma ao TAB a historiadora Christiane Maria Cruz de Souza, doutora em História das Ciências da Saúde e autora do livro “A Gripe Espanhola na Bahia” (Editora Fiocruz). Edison Veiga

Passageiros a bordo do navio Demerara, que saiu de Liverpool, Inglaterra, em 14 de setembro de 1918, foram os primeiros a carregar a doença. A embarcação fez escalas em Lisboa e, já no Brasil, em Recife e Salvador, até aportar no Rio de Janeiro, então capital do País. Altamente contagiosa — e sem medicamentos ou vacina —, a gripe se alastrou. “O que se tratava eram os sintomas: dor de cabeça, febre, coriza, essas coisas, esperando que o organismo reagisse à doença, ministrava-se tônicos para fortalecer o organismo, incentivada uma boa alimentação, ambientes arejados e que o doente não ficasse próximo das pessoas sãs.”

As orientações e os conselhos eram muito similares aos atuais: lavar as mãos, evitar aglomerações, preferir locais arejados, evitar apertos de mão e abraços. 

Uma das versões da invenção da caipirinha, o famoso drinque brasileiro, remonta ao período. Segundo acredita e difunde o Instituto Brasileiro da Cachaça (Ibrac), a bebida teria sido criada no interior paulista como um remédio popular para os doentes de gripe espanhola, seria uma adaptação da receita de xarope feito com limão, alho e mel — o acréscimo de álcool em remédio caseiro era comum porque se dizia que “acelerava o processo terapêutico”. Posteriormente, a retirada do alho e do mel — e o acréscimo do açúcar e do gelo — fizeram nascer o drinque mundialmente conhecido.

Nas palavras de um jornal da época: “a desordem dos espíritos causa a desordem das coisas”. 

A epidemia da gripe espanhola teve, em São Paulo, os primeiros casos registrados em 16 de outubro e os últimos em 19 de dezembro de 1918. Em pouco mais de dois meses foram notificados 116.777 infectados (22,32% da população da capital), sendo 86.366 apenas no mês de novembro. Em apenas três dias, entre 29 e 31 de outubro, 14.066 pessoas adoeceram”, conta a historiadora Monica Musatti Cytrynowicz, autora do livro “Do Lazareto dos Variolosos ao Instituto de Infectologia Emilio Ribas: 130 Anos de História da Saúde Pública no Brasil” (Editora Narrativa Um). Aliás, é provável que o número seja superior aos oficiais: a médica Rita Barradas Barata calcula que tenham sido 350 mil os casos na capital paulista, o que significa dois terços da população.

“A inexistência de leis trabalhistas que garantissem a convalescença remunerada, a jornada de até 16 horas no chão de fábrica e os parcos salários — mesmo após as reivindicações da grande greve de 1917 — fizeram de operários gripados a grande parcela de vítimas da epidemia na cidade de São Paulo: trabalhavam enfermos sob o risco de condenar suas famílias à absoluta miséria”, escreveu Anna Ribeiro.

“Um dos maiores problemas foi a contaminação dos médicos e enfermeiros, o que dificultava ainda mais o atendimento. No Hospital de Isolamento, atual Instituto de Infectologia Emílio Ribas, quase todos tiveram a gripe, excetuando-se, além do diretor, o cozinheiro, o jardineiro chefe e dois serventes”, diz Cytrynowicz.

“Foram então criados, além do hospital da Hospedaria e da enfermaria especial da Santa Casa, cerca de 40 hospitais provisórios na capital para receber os doentes de gripe, em espaços cedidos por entidades como clubes — entre eles o Paulistano e o Palestra Itália — e escolas, destacando-se o Grupo Escolar da Barra Funda (com 500 leitos) Colégio Diocesano (com 400), Mackenzie (400), Salesianos (300), Ginásio do Carmo (300) e Santa Inês (250). Além dos hospitais, foram criados 44 Postos de Socorros e 83 farmácias foram autorizadas a distribuir receitas gratuitas aviadas por conta do governo”, enumera a pesquisadora.

Eleito presidente da República pela segunda vez, o político Francisco de Paula Rodrigues Alves (1848-1919) foi uma das mais ilustres vítimas: morreu antes de assumir seu mandato. Edison Veiga – TAB, de Bled (Eslovênia)

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