A gente sempre soube.


Todos os indícios — e não há como negar vídeos, esconder ferimentos e calar depoimentos — mostram que a operação Pancadão foi mais uma lamentável demonstração do retrocesso civilizatório que atingiu o país depois das eleições de 2018. A violência policial, os abusos das autoridades que têm a força e o desrespeito em relação a direitos humanos estão, aos poucos, sendo naturalizados. Discute-se o excludente de ilicitude — na verdade, uma licença policial para matar — como se fosse banalidade. Helena Chagas – Brasil 247
Não é. Mas a brutalidade, estimulada pelo poder público, passou a ser aceita por alguns, na ilusão de que ela só atinge os “bandidos” nas periferias, e que eles merecem. Nao é assim. Um dia, o seu filho pode estar no baile. E, se não houver um freio a essa onda por parte de quem foi eleito para governar para todos, um dia ela vai engoli-los também.

Com mais de 100 mil habitantes, Paraisópolis é a segunda maior comunidade de São Paulo, atrás apenas de Heliópolis. O pancadão em que as mortes ocorreram se chama Dz7, conhecido também como Paraíso do Mal, e é um dos maiores de São Paulo. Segundo a PM, havia cerca de 5.000 pessoas no momento das mortes.

Esse tipo de evento ocorre de maneira relativamente descentralizada, principalmente nas periferias de cidades paulistas. Pessoas levam carros com potentes aparelhos de som para a rua, onde música e festa ocorrem pela madrugada.

O fenômeno cultural desperta debates sobre a vida em sociedade. De um lado, há moradores que reclamam do barulho e das aglomerações. De outro, há uma juventude sem acesso a lazer. Desde o início do ano, o governo de São Paulo vem tomando medidas mais enérgicas para tentar suprimir as centenas de pancadões que ocorrem na cidade.

Segundo relatos de dezenas de moradores colhidos pelo site de jornalismo especializado em direitos humanos Ponte Jornalismo, a ação policial ocorreu após cerca de um mês de ameaças de policiais aos moradores.

O sargento da PM Ronald Ruas Silva foi morto em uma troca de tiros na avenida Professor Alcebíades Delamare, próxima a Paraisópolis, no dia 1º de novembro. Depois disso, a PM anunciou uma “operação saturação” na área. Ou seja, uma ação com presença de um grande contingente de policiais.

Segundo relatos obtidos pela Ponte Jornalismo, a polícia estaria, desde então, constrangendo moradores. Ao site a PM afirmou que “faz rondas diárias na região da ocorrência para aumentar a sensação de segurança da população e como medida de prevenção às práticas criminosas”.

Ao vencer a disputa pela prefeitura de São Paulo em 2016, João Doria (PSDB) definiu os pancadões como um “cancro que destrói a sociedade”, e disse que esses eventos eram administrados pela facção PCC (Primeiro Comando da Capital). NEXO JORNAL LTDA.
Joselicio Junior: “Mesmo recheado de contradições, de apropriações pela indústria cultural, de apropriação até mesmo do crime organizado, em alguma medida a transgressão de jovens através dos pancadões tem um caráter insurgente e antissistêmico”
O samba, que hoje é exaltado como um símbolo de nossa identidade nacional, tem suas origens nas senzalas, nos quilombos, na cultura de resistência produzida pelo povo negro e não por acaso, por muitos anos, reprimido duramente pelas forças repressoras do Estado. Basta pesquisar o depoimento de sambistas mais velhos, para ouvir relatos da repressão policial em rodas de samba e desfiles. Os cordões carnavalescos paulistas do início do século XX também eram reprimidos pelo Estado, assim como os estereótipos do malandro, do vadio, sempre foram usados como pretextos para a ação violenta. Joselicio Junior

Os cegos do castelo

Ainda bastante impactado pelas cenas chocantes e brutais da ação policial de repressão ao baile funk em Paraisópolis, na cidade de São Paulo, lembro que hoje é o Dia Nacional do Samba e, inevitavelmente, começo a traçar paralelos entre o samba e o funk.

O samba, que hoje é exaltado como um símbolo de nossa identidade nacional, tem suas origens nas senzalas, nos quilombos, na cultura de resistência produzida pelo povo negro e não por acaso, por muitos anos, reprimido duramente pelas forças repressoras do Estado. Basta pesquisar o depoimento de sambistas mais velhos, para ouvir relatos da repressão policial em rodas de samba e desfiles. Os cordões carnavalescos paulistas do início do século XX também eram reprimidos pelo Estado, assim como os estereótipos do malandro, do vadio, sempre foram usados como pretextos para a ação violenta.

Nos anos 80, os jovens que se reuniam na região central para dar os primeiros passos da cultura hip hop no Brasil também eram reprimidos, sem contar os inúmeros eventos que foram impedidos ou reprimidos nas quebradas.

O funk tem a mesma origem do samba, suas raízes estão no batuque, na batida do maculelê, “é som de preto, de favelado, mas quando toca ninguém fica parado”, como descrevem Amilcka e Chocolate na música “Som de Preto”. Um ritmo dançante, envolvente e que se tornou uma grande expressão cultural da juventude e se ramificou em diversas vertentes, que vão da ostentação, proibidão, melody, ousado, vida real entre vários outros.

Há várias críticas ao funk por conteúdos sexistas, machistas, objetificação das mulheres, ostentação ao crime, ostentação ao consumismo. Críticas que também cabem a outros estilos musicais. Porém, ganham mais potência em relação funk, o que gera uma criminalização da cultura. Como qualquer outra expressão cultural, o funk é fruto do seu tempo e externaliza também as contradições do seu tempo, em alguma medida, é a explosão de uma juventude duramente reprimida em seu cotidiano, uma válvula de escape, uma busca por pertencimento. Portanto, a repressão não será capaz de acabar com essa cultura, pelo contrário, alimenta um espírito de corpo.

Que o Dia Nacional do Samba também nos sirva de reflexão. Se o samba não pode morrer, como exaltou Aloisio Silva e Edson Conceição em 1975, através da linda interpretação de Alcione, que o hip hop, o funk e tantas outras expressões culturais de resistência do nosso povo também permaneçam vivas, mas sobretudo que nosso povo, nossa juventude permaneça viva e tenha direito a um futuro.

Minha solidariedade aos familiares das vítimas, aos feridos fisicamente e psicologicamente. Força à toda comunidade de Paraisópolis! Revista Forum

Funk-se: The policeman, negro e da periferia?!?, Os cegos do castelo, Alexandra Baldeh Loras, Preconceito, é preciso admitir!?!, Jesus do Funk, MC SOFFIA, Isso é normal?, Exu tranca-copa, Bolsa família, Mas que dogs, PANCADARIA DO Ó, Mulheres ou Bruxas?

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