Fernanda Young (1970-2019)

Última coluna dela (O Globo), que será publicada hoje. Ela partiu ontem, domingo, 25/08/2019

BANDO DE CAFONAS
Fernanda Young

“A Amazônia em chamas, a censura voltando, a economia estagnada, e a pessoa quer falar de quê? Dos cafonas. Do império da cafonice que nos domina. Não exatamente nas roupas que vestimos ou nas músicas que escutamos — a pessoa quer falar do mau gosto existencial. Do que há de cafona na vulgaridade das palavras, na deselegância pública, na ignorância por opção, na mentira como tática, no atraso das ideias.

O cafona fala alto e se orgulha de ser grosseiro e sem compostura. Acha que pode tudo e esfrega sua tosquice na cara dos outros. Não há ética que caiba a ele. Enganar é ok. Agredir é ok. Gentileza, educação, delicadeza, para um convicto e ruidoso cafona, é tudo coisa de maricas.

O cafona manda cimentar o quintal e ladrilhar o jardim. Quer todo mundo igual, cantando o hino. Gosta de frases de efeito e piadas de bicha. Chuta o cachorro, chicoteia o cavalo e mata passarinho. Despreza a ciência, porque ninguém pode ser mais sabido que ele. É rude na língua e flatulento por todos os seus orifícios. Recorre à religião para ser hipócrita e à brutalidade para ser respeitado.

A cafonice detesta a arte, pois não quer ter que entender nada. Odeia o diferente, pois não tem um pingo de originalidade em suas veias. Segura de si, acha que a psicologia não tem necessidade e que desculpa não se pede. Fala o que pensa, principalmente quando não pensa. Fura filas, canta pneus e passa sermões. A cafonice não tem vergonha na cara”…

Fernanda Young
Arquitetura do Tempo

Foto: André Gardenberg
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Eu sou uma mulher normal, passo o dia inteiro pensando merda”, diz Vani (Fernanda Torres) na sua primeira cena deOs Normais, cujo primeiro episódio foi ao ar no dia 1º de junho de 2001, quando o Brasil nem sabia direito ainda quem era a tal da Fernanda Young, escritora jovem e promissora, que até então tinha assinado alguns bons episódios do especial A Comédia da Vida Privada. “Pensar merda” é um privilégio de poucos, serve como eufemismo para todas as divagações fúteis da mente, aquelas sem sentido prático, sem engajamento, mas tomadas de nervos humanos inerentes. Omelete

Vejo o azul sereno através das pálpebras fechadas, guardei todas as cartas que li dentro de mim. Sinto meus pés leves e aquecidos. Tenho asas e estou voando. A vida deve ser exata, podo os excessos da massa que transborda pela forma. Sou uma cozinheira. Sou uma cientista. Sou livre para decidir cada próximo segundo da minha vida. Eu sou azul. Essa é a minha matéria”.

Fernanda Young. 1970 – 2019

https://www.omelete.com.br/series-tv/normais-shipados-partida-de-fernanda-young

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