Mente plus Corpo

Um dia, no outono de 1981, oito homens na casa dos 70 anos entraram em um mosteiro em New Hampshire, nos EUA. Aquela seria sua casa pelos próximos cinco dias.

A partir do momento em que eles atravessaram as portas, foram tratados como se fossem mais jovens. Inclusive, tiveram que levar seus pertences sozinhos ao andar de cima, mesmo que tivessem que levar uma camisa por vez. Os homens do grupo experimental foram orientados a não apenas falar sobre a época anterior de sua vida, e sim a habitá-la, ou seja, fazer uma tentativa psicológica de ser a pessoa que eram há 22 anos.

Os homens estavam participando de uma experiência radical inventada por uma psicóloga chamada Ellen Langer, da Universidade Harvard (EUA). Hypescience

Antes de chegar na casa, os homens foram avaliados em medidas como destreza, força de preensão, flexibilidade, audição, visão, memória e cognição, entre outros biomarcadores testáveis de idade. “Nós temos boas razões para acreditar que, se você for bem sucedido nisso, você vai se sentir como se sentia em 1959”, ela disse aos participantes.

No ambiente, não havia nenhum espelho, nenhuma roupa moderna ou fotos recentes, apenas retratos dos próprios homens mais jovens.

A teoria de Langer era que as pessoas precisavam de uma “melhora psicológica” para se curar fisicamente; algo da mente que acionasse o corpo para tomar medidas curativas por si só.

Anos depois, em 2010, a BBC transmitiu um programa de TV chamado “The Young Ones”, uma espécie de recriação desse estudo. Langer foi uma consultora, e seis ex-celebridades envelhecidas foram as cobaias.

Os participantes foram levados em carros da época para uma casa de campo meticulosamente adaptada a 1975. Depois de uma semana, eles estavam aparentemente rejuvenescidos e mostrando uma melhora acentuada em várias medidas de teste. Um dos homens, que tinha chegado em uma cadeira de rodas, saiu usando apenas uma bengala. Outra mulher, que não podia nem colocar meias sozinha no início, foi a anfitriã do jantar da última noite, deslizando ao redor energizada.

Todos os participantes andavam mais eretos e de fato pareciam mais jovens. Langer crê que tal melhora teve muito a ver com seus egos reacendidos, ponto fundamental para a recuperação de seus corpos.

Para ela, placebos não são apenas pílulas de açúcar disfarçadas de medicina: são qualquer intervenção benigna que o destinatário acredita ser potente, e que produz mudanças fisiológicas mensuráveis, ela acha que esses efeitos são enormes, tão grandes que, em muitos casos, podem realmente ser o principal fator a produzir os resultados.

O efeito placebo é um fenômeno impressionante e ainda não tão bem compreendido. A medicina tradicional apenas reconhece por cima o papel do efeito placebo e o contabiliza em seus experimentos.

Enquanto o primeiro experimento de 1981 não foi publicado, ela e seus colaboradores já fizeram inúmeros outros estudos nos quais a mente teve um poder excepcional na melhora de um indivíduo. NYTimes

No livro que apresentou os resultados do experimento, Counterclockwise, Langer assegura que tanto o grupo de controle quanto o grupo experimental mostraram melhorias em “força física, destreza manual, marcha, postura, percepção, memória, cognição, sensibilidade gustativa, audição e visão.” Blog do Valentin

A experiência tem seus críticos, que nela vêem apenas o efeito placebo, mas Ellen Langer continua insistindo que a atenção plena (mindfulness),que pode ser obtida pela meditação e por exercícios específicos, tem um poder imenso, muitas vezes desprezado e garante que “muitas consequências da velhice podem ser ambientalmente determinadas e, assim, potencialmente revertidas pela manipulação do ambiente.”

Desde primeiro de julho de 2018, a Universidade Católica do Sagrado Coração de Milão desenvolve um estudo que procura responder a uma pergunta diante da qual muitos de nós gostaríamos de ouvir um sim: “minha mente pode ser usada para me tornar mais jovem?” Em busca de uma resposta, o professor Francesco Pagnini recrutou 90 pessoas com mais de 75 anos e dividiu-as em três grupos.

Um terço continuou a levar sua vida normalmente; outro terço ficou em suas casas, sem mudanças maiores no cenário e na rotina. Já o terceiro grupo teve suas casas e rotinas modificadas, de modo a simular um mergulho radical e profundo no ano de 1989, quando os participantes tinham por volta de 46 anos.

Cada participante será avaliado quatro vezes quanto à aparência médica, cognitiva, psicológica e de idade: no recrutamento, após a intervenção e novamente após 6 e 12 meses. O plano de pesquisa indica junho de 2020 como data prevista para o término do trabalho.

No sumário da pesquisa, o professor Pagnini antecipa que os resultados “poderão promover uma mudança de mentalidade não apenas nos participantes, mas na população em geral” e explica que o plano de comunicação inclui a apresentação dos resultados às comunidades e associações de idosos, usando o experimento como uma prova de conceito. Ele deverá demonstrar que “desafiar estereótipos rígidos, culturalmente motivados e relacionados à idade pode resultar em melhoria da saúde e do bem-estar”.

Agora, a repetição do experimento deve permitir aferir seus efeitos com a precisão que a tecnologia do século XXI oferece e sem a embalagem televisiva, embora o professor Francesco Pagnani seja um abnegado integrante da equipe de Ellen Langer.

Editado via celular. Atualizado em 27jan2022.

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